
Aécio fez rápido discurso sem ocupar a tribuna e afirmou que retorna com a serenidade dos homens de bem. Ele se diz vítima de ardilosa armação.
O senador tucano Aécio Neves voltou nesta quarta-feira (18) ao Congresso, mas ele enfrenta pressão dentro do PSDB para deixar definitivamente a presidência do partido.
A quarta-feira começou no Senado em ritmo mais lento, ainda sob o clima da votação de terça-feira (17) que colocou o nome do senador Aécio Neves de volta ao painel do plenário do Senado.
“Ressaca moral. É lamentável. O Senado abriu um precedente seríssimo. O Senado não esteve à altura de sua história como instituição da República. O plenário do Senado tomou uma deliberação das mais antagônicas ao sentimento da opinião pública”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP).
Dos 44 votos para derrubar as medidas cautelares impostas pelo Supremo, 28 vieram do PMDB e do PSDB. Dos 22 senadores do PMDB, 20 compareceram ao plenário e 18 votaram a favor de Aécio Neves. No PSDB, dos 11 senadores que podiam votar, dez participaram da sessão e todos votaram para livrar Aécio das punições.
Outros nove partidos – PP, PR, DEM, PRB, PTC, PROS, PSD, PSC, PTB – contribuíram com 16 votos.
Dos senadores que votaram a favor de Aécio Neves, 18 são investigados na Lava Jato ou em desdobramentos de inquéritos da operação.
São eles: do PMDB, Edison Lobão, Eduardo Braga, Fernando Bezerra Coelho, Garibaldi Alves Filho, Ivo Cassol, Jáder Barbalho, Renan Calheiros, Romero Jucá e Valdir Raupp; do PSDB, Antônio Anastasia, Cássio Cunha Lima, Dalírio Beber e José Serra; do PP, Benedito de Lira e Ciro Nogueira; além de Omar Aziz, do PSD, Fernando Collor, do PTC, e José Agripino, do DEM.
O senador Zezé Perrella, do PMDB de Minas, aliado de Aécio, também votou a favor do senador. Perrella não é formalmente investigado, mas o gabinete dele foi alvo de busca e apreensão pela operação Lava Jato em maio deste ano.
Entre os senadores que são investigados na Lava Jato ou em inquéritos ligados à operação, votaram contra Aécio Neves, ou seja, para manter as medidas cautelares: do PT, Paulo Rocha, Humberto Costa, Lindbergh Farias e Lídice da Mata; e Kátia Abreu, do PMDB.
Depois da votação, apenas aliados mais próximos foram à casa de Aécio na noite de terça-feira (17). Entre eles, o deputado tucano de Minas, Paulo Abi-Ackel, que foi o relator do parecer contra o prosseguimento da primeira denúncia contra o presidente Michel Temer na Câmara.
Nesta quarta, Aécio passou a manhã em casa. No meio da tarde, uma funcionária do Senado levou o comunicado oficial sobre a decisão de terça. Pouco depois, Aécio saiu de carro. Foi direto para o Senado. Chegou pela entrada principal e seguiu para o plenário. Fez um rápido discurso sem ocupar a tribuna. Afirmou que retorna com a serenidade dos homens de bem.
“Será no exercício do meu mandato que irei me defender das acusações absurdas, falsas, de que tenho sido alvo. Sou, senhor presidente, devo dizer nesse instante, vítima de uma ardilosa armação, uma criminosa armação perpetrada por empresários inescrupulosos que se enriqueceram às custas do dinheiro público e não tiveram qualquer constrangimento em acusar pessoas de bem na busca dos benefícios de uma inaceitável delação ora suspensa em razão de parte da verdade estar vindo à tona, senhor presidente”, disse Aécio.
Ao fim do discurso, não houve nenhuma reação no plenário, nenhum aparte, nem de aliados do PSDB. Apenas os cumprimentos discretos de poucos senadores. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, seguiu com a sessão. Mais cedo, Eunício procurou diminuir os efeitos negativos do caso Aécio sobre o Senado.
“Primeiro, o assunto Aécio nunca dominou o Senado. O Senado tem pauta própria e nos piores momentos da crise econômica, da crise política, o Senado nunca produziu tanto quanto produziu nos últimos tempos”, afirmou.
Mas as dificuldades de Aécio no Senado não acabaram. Há um pedido do PT no Conselho de Ética para abertura de processo de cassação do mandato de Aécio por quebra de decoro parlamentar, baseado nas gravações feitas pelo dono da J&F, Joesley Batista, em que o senador pede R$ 2 milhões. Um outro pedido, apresentado pela Rede e pelo PSOL, foi arquivado em julho pelo conselho. E Aécio ainda enfrenta pressões dentro do próprio partido.
O presidente em exercício do PSDB, Tasso Jereissati, que votou a favor de Aécio, disse que ele tem a obrigação de se defender no Conselho de Ética.
Tasso também divulgou uma nota em que diz que a decisão do PSDB de apoiar Aécio “não implica de forma nenhuma em um juízo de valor sobre as atitudes do senador e muito menos pode ser entendida como parte de qualquer acordo relacionado à votação da denúncia contra o presidente Michel Temer na Câmara.”
Tasso defendeu que Aécio renuncie ao cargo de presidente do PSDB, do qual está licenciado desde maio: “Ele não tem condições, dentro das circunstâncias em que está, de ficar como presidente do partido e nós precisamos ter uma solução definitiva, e não provisória.”
Aécio se recusou a responder sobre a cobrança de Tasso: “Não trato de questões partidárias pela imprensa.”
Senadores do PSDB se reuniram no gabinete de Tasso Jereissati para discutir a situação de Aécio Neves e da presidência do partido. Em seguida, Tasso disse que cabe a Aécio decidir de acordo com a própria consciência.*JN
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